“Me debrucei na beirada do abismo,
Olhei para baixo, tremendo os ossos
Vi as ondas chegarem como loucas,
Baterem ferozmente contra a parede terrosa,
As pedras duras como meu coração.
Me joguei muito para frente,
A grama escorregadia me fez forçar o peso,
Empurrar o braço para baixo,
Soltando um pedaço da ponta que me mantinha
Vi tudo girar, ir para frente e para trás, deixando-me tonto.
Caí…
Não me segurei, não pude, o corpo era mais pesado.
O nada do abismo me sugava, me chamava.
Clamava por minh’alma, meu ser choroso.
E então me pegou pelo punho e me puxou com mais força.
Me puxava, me puxava, me puxava…
Me deixei ser levado, desisti.
Senti o ar batendo em meu rosto,
As gotículas de água entrarem em minhas narinas,
Os meus cabelos curtos esvoaçarem com o vento forte,
O cheiro de lama, de musgo retraindo meus pulmões…
Caí…
Não vi a vida que tive à minha frente,
Apenas fim, apenas o desejo de bater contra a maré,
Sentir o gosto salgado do mar invadindo minha boca,
Apenas acabar com tudo isso e morrer.
E então: me espalhei em queda.
Me debrucei na beirada do abismo, Olhei para baixo, tremendo os ossos Vi as ondas chegarem como loucas, Baterem...