Era o desejo batendo incansavelmente à porta. “Entre”, eu disse com ar de irritação tão grande quanto a do visitante. “Sente-se, lhe trarei café”, falei apontando com a mão, o sofá. Nunca uma visita preenchera tanto minha casa, nunca me sentira tão completo mas tão fora de mim ao mesmo tempo. Entreguei, com as mãos trêmulas, a xícara ao visitante, que ao aceitar a bebida roçou seus dedos em minha pele. Logo recuei e puxei o braço pra longe dele. Fiquei olhando-o por algum tempo que pareceu tão, tão, tão longo que me senti perdido da consciência em sua beleza estonteante, seu ar de pureza e luxúria, pecado e condenação… Bebia o café lentamente, levando a xícara à boca fina; não falava nada, nada conversávamos, o silêncio apenas pairava no ar, tornando o momento um tanto quanto incômodo em algo simplesmente delicioso. Ele se inclinou para colocar a xícara e o pires na mesa de centro e ao me olhar em agradecimento, me agarrou a mão que estava posta em meu joelho… Não passou minutos e já havia sucumbido à beleza do querer, ao seu hálito de jasmins, aos seus braços mais que envolventes… Desejo… Desejo era seu nome, visitante que veio pra morar.
Vinicius Nogueira, “Entrega”.