– Faça duplo. – disse Carmen ao barman, que encheu seu copo.
O bar da esquina cheirava a mofo, a fumaça de cigarro e ao cheiro misturado de todas as bebidas que ali eram feitas. Lugar escuro, com poucas lâmpadas de teto e alguns abajures em cima das mesas e do balcão. O ar pesado tomava conta dos pulmões de Carmen que fumava e bebia quase que ao mesmo tempo. Ela era uma senhora de seus sessenta e poucos anos, amarga por uma vida que vinha sendo atribulada há alguns anos. Todo final de semana ia a esse mesmo bar para encher um pouco a cara e voltar de madrugada para sua casa, e acabar por dormir sozinha, novamente.
Uma tragada do cigarro, uma batida das cinzas no cinzeiro, um gole de whisky, uma tragada, uma batida, um gole, uma tragada, uma batida, um gole… E isso continuava, constantemente. Vezenquando balbuciava alguma coisa baixa para si mesma e o barman tentava entender, mas logo a ignorava e voltava a enxugar os copos e a servir os clientes.
Ninguém ali sabia ao certo o porquê de Carmem ir aquele bar apenas para beber e fumar sozinha enquanto falava consigo mesma. Alguns diziam que ela era louca, que matou o marido e que ignorava a culpa com álcool e tabaco. Outros especulavam que após perder o marido ela tentou acabar com a vida pra terminar com a dor, mas acabou por encontrar um suicídio mais eficaz que pular da ponte: se embebedar em meio à fumaça. Já o barman acreditava que ela só gostava daquele estabelecimento. E era verdade, a senhora viciada em fumo tinha um enorme carinho por aquele boteco. Volta em seus anos de boa vida, Carmen ia com seus amigos e seu marido (na época, namorado) ao bar após o expediente. Passavam horas e horas falando alto e rindo do Nhô Antônio, vizinho de Carmen e velho ranzinza que vivia a reclamar da vida, falavam também da Dona Marieta, senhora que só sabia fofocar dos moradores da vila. Jogavam conversa fora sobre política, sobre o preço da melancia e gritavam para o barman encher-lhes o copo a cada dez minutos.
Carmen sentia falta daquela época, do bar lotado durante as tarde de quarta-feira, da risada dos seus amigos – agora, três falecidos e os outros dois morando em outra cidade –, do Nhô Antônio e da Dona Marieta, sentia falta das suas palavras secas e rancorosas sobre a vida dos outros inclusive das deles mesmos. Para Carmen, só lhe restara o ar espesso e fumacento e os mesmos velhos copos do bar; o cigarro não era mais o mesmo, mudou, o sabor era outro, mas era passável, lembrava-lhe um pouco o que ela costumava tragar antigamente.
Ela se ajeitara no banco sem encosto, virou de costas, apoiou os cotovelos no balcão e observou as pessoas: os senhores que bebiam ao fundo e falavam demasiadamente alto, os jovens perto à porta que riam e batiam as mãos na mesa, fazendo a garrafa cair, a garçonete que servia os clientes e quase sempre levava tapa na bunda de algum descarado, e, ao fundo do balcão, um velho senhor que sussurrava sozinho. Carmen vira para o balcão e se dirige ao barman:
– Quem é aquele homem? – Disse, apontando ao velho.
– Não o conheço, primeira vez que vem aqui. – Respondeu o jovem enquanto jogava fora os cacos de vidro da garrafa quebrada.
– Hm… Bom, garoto; pode encher o meu copo. Faça duplo e, aproveite e esvazie meu cinzeiro.